The Last House, a casa como um planeta a devolver

Uma família fechada dentro de casa, uma chuva que nunca para, criaturas que saem do mar. The Last House, de Louis Leterrier, conta uma invasão alienígena que, olhando melhor, é algo completamente diferente.

14 de agosto de 2026 · 3 min

the last house netflix
Credits: Netflix

Uma casa que se fecha sozinha, numa manhã qualquer depois de uma tempestade. É uma imagem simples, quase doméstica, e é precisamente por isso que funciona. The Last House parte daí e quase nunca se afasta: constrói o seu cinema dentro de quatro paredes, com a família Delgado, Ann e Jason, interpretados por Greta Lee e Wagner Moura, juntamente com os filhos Graham e Ruth.

Uma invasão que não é uma invasão

Louis Leterrier constrói o primeiro ato como um clássico filme de alienígenas. Portas que não abrem, janelas que se regeneram, o mundo exterior engolido por uma chuva que parece ter vontade própria. Depois, algo começa a rachar. As criaturas que se movem para lá dos vidros não vêm de outro planeta: são seres oceânicos, tão antigos quanto a Terra, que regressaram à superfície porque o homem tornou o seu habitat inabitável. Pensamos que é um filme sobre uma invasão, mas depois percebemos que os alienígenas somos nós. A inversão é o verdadeiro gesto de autor do filme. Não uma reviravolta por si só, mas uma mudança de perspetiva: a espécie ameaçadora não é a que tem tentáculos.

Jason, Ruth e duas formas de olhar

Dentro da casa, Leterrier constrói uma oposição precisa entre dois sistemas de pensamento. Jason, engenheiro e pescador, enfrenta o cativeiro com as ferramentas que conhece: constrói, repara, controla, luta. É uma personagem escrita com afeto mas sem condescendência, cuja força se torna progressivamente uma limitação. Ruth olha de outra maneira. Não tem poderes, não tem visões: tem apenas a disponibilidade para imaginar que as criaturas possam querer algo além da destruição. Wagner Moura descreve a sua filha na ficção como alguém capaz de raciocinar noutra frequência, e a definição descreve bem a estrutura moral do filme: duas formas de estar no mundo, uma baseada no domínio, a outra na escuta.

Um cenário que envelhece com as personagens

O salto temporal de cinco anos é contado mais pela matéria do que pelos diálogos. As paredes desgastam-se, os objetos são desmontados e remontados, bicicletas e aspiradores tornam-se ferramentas de sobrevivência. A produção filmou em grande parte seguindo a ordem cronológica da história, e isso nota-se: os atores envelhecem dentro de um espaço que envelhece com eles, até a um final subaquático filmado com mergulhos reais. Submergimos a casa. A água, as plantas, a casa: é tudo real.

O controlo como armadilha

Sob a superfície do género, The Last House fala sobretudo do preço de abdicar do controlo. Jason passa o filme a proteger a família da única forma que conhece, através da força, e o momento mais difícil chega quando deixa de o fazer. Wagner Moura descreve o arco da personagem com uma frase seca: Aquilo que ele queria não era aquilo de que precisava. Não é um filme que recompensa quem vence um confronto. É um filme que recompensa quem consegue confiar num olhar diferente do seu, mesmo quando vem de uma filha de dez anos.

Os limites de um final aberto

O filme muda de ritmo entre a primeira e a segunda parte, e o epílogo deixa mais perguntas do que respostas: quem responde ao rádio de Ruth continua a ser um mistério assumido, não um erro de argumento. É uma escolha que pode convencer ou não, mas que é coerente com a abordagem do filme: The Last House nunca procurou realmente explicar os monstros. Procurou explicar-nos a nós.